17 de abr. de 2013

ALICIS ESPECULARIS


Adriana Peliano


Jan Svankmajer

John Tenniel

Num enerdia de verão, aos 7 anos de idade, olhei através do espelho de Alice. Encontrei uma menina enigmágica que logo me perguntou: Quem é você? Ela não aceitou meu nome como resposta: assim é como você é chamada, retrucou. De súbito nossos espelhos se refletiram entre as curvas do espaço-tempo como um myse en abyme. Naquele instante perdi meu nome no espelho. Hoje busco novas Alices em aventuras labirínticas atravessando múltiplas artes. Me reinvento em Ali-se e seus tantos nomes que se expandem em uma inesgotável criação de eus: Alis, A lys, Alyssos, Alastos, Allistos, Alussas, Alions, entre outras crises e devires: reino das alicinações.


Kenneth Rougeau

Com Alices reviajo no país dos espelhos por caminhos espiralados e mergulho numa floresta misteriosa onde se perde e se encontra essa menina rompiecabezas,  plurilíngua, borboletra alicenógena, proliflora desejos em casulos oníricos, fantasmagorias deliram psicodelícias. Amaravilhas. Vislumbro um rio de florosofias errantes, espelhos líquidos, clepsidras lúdicas, Lúcia no céu com diamantes. Sonhos de Escher dançam geometrias impossíveis. Cabelos revoam anéis de Moebius.

Trevor Brown

Aliceoscópios são uma singular criação catóptrica, uma arte de conceber engenhos especulares que criam visões insólitas, perspectivas paradoxais, geografias exdruxulistas, cartografias escalafobéticas. Num golpe de máquina o espelho mutante de Alice viaja através de tempos loucos e sonhos quânticos em uma inesgotável “sede do infimito”. Sua experimentação exige constante movimento, um amor pelo estranho e indomesticável, libertando armadilhas do conhecido. Alikezan! Alices extrapolam saberes cômodos e estagnados e vão viver novas aventuras desafiando fontes de desejos e desfiando teias e constelações em  feixes de fabulações. CURIOUSER and curiouser! Estou me esticando agora como o maior telescópio jamais visto. Adeus pés!


René Magritte
Surrealices nos convidam a atravessar os espelhos de Magritte, janelas para o invisível, sonhos dentro de sonhos, inclassificáveis confabulando com impossíveis atrás dos pensaventos. Nos ‘livros de Próspero’ de Peter Greenaway, um dos vinte e quatro livros é composto por páginas de diferentes espécies de espelhos. Cada página produz um reflexo metamórfico devolvendo inesgotáveis imagens de Alices quem somos. Sua leitura se faz nascente de fluxos cósmicos de criação de sentidos, mágica pulsante de investigação de si-m. Monstros do espelho, uni-vos!

Michele Lapointe

Alice foi a heroína vitoriana de um estrambólico e feraz livro de histórias infantis. Viajou para a Disneylândia e foi capturada em ondas de colonização de sonhos. Mergulhou em habit roles e num fluxo rebelde, irradiou wanderlandsHoje respira novos artes em jogos de ser o não ser. Eu... eu... nem eu mesmo sei, senhora, nesse momento ... eu ... enfim, ei quem eu era, quando me levantei hoje de manhã, mas acho que já me transformei várias vezes desde então.


Em diferentes encarnações novas Alices não buscam reproduzir em imagens o que está escrito nos livros, mas de viajar em suas veias e teias, entre mergulhos, travessias e cogumelias. Inúmeras alicinações podem ser criadas desvairando em paradoxos, línguas inventadas, desejos nômades, metamorfoses sem cabeças, sonhos dentro de sonhos, caminhos erráticos, risos loucos pairando no ar, desloucamentes. Ao invés da pergunta: quem é Alice, hoje desdobram caminhos para quem Alice pode tornar-se...



Adriana Peliano

Na travessia dos mil anos o espelho de Alice explodiu em milhares de pedaços, proliferando no imaginário coletivo novas meta-alices numa ampulheta magicósmica, aliceoscópio de alicinações. Nesse universo de mundos possíveis, procuram-se artistas movidos pelo desejo de rebelar os modelos alienados da menina e suas viagens cem sentidos. Hoje extrapolam Alices que entorpecem a imaginação e se desdobram em estereótipos que aprisionam e banalidades que insistem em empobrecer a vida e a arte. Em suas desventuras, exércitos de Alices bebem da garrafa escrito “clichês”. Mas Alice had got so much into the way of expecting nothing but out-of-the-way things to happen, that it seemed quite dull and stupid for life to go on in the common way.”

Elena Kalis

O país das maravilhas e o país do espelho podem estimular o encontro com o desconhecido, a incerteza e o mistério. Jardins de alicismos buscam o que é inexprimível pela palavra, o invisível, jorrando possibilidades inesgotáveis que habitam nas margens e entrelinhas. Menina caleidoscópio, jogo de reflexos múltiplos e simultâneos, fragmentos que cruzam monstrologias e alimentam nossos rios, riscos e risos. Alice nos convida a mergulharmos no poço profundo e atravessar o espelho desafiando as loucuras que nos atravessam. Como escreveu Paulo Mendes Campos em carta para sua filha Maria da Graça: Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.


                                

Yayoi Kusama

“As aventuras de Alice dentro da toca do coelho ou através do espelho encoraja
 a procurarmos outras brechas para penetrarmos no maravilhoso.” 

Pierre Mabile

Frédéric Delanglade

"O artista terá, tal como Alice no país das maravilhas, que atravessar o espelho da retina para alcançar uma dimensão mais profunda."

Marcel Duchamp 

Alain Gauthier

"Com a prudência que lhe confere a sua inteligência matemática e o seu sentido de humor Lewis Carroll escolheu a barca do sonho para atravessar mais confortavelmente o espelho dos olhos de Alice."

Frédéric Delanglade

Margarita Prachatika

“lewis carroll olhou através do espelho e encontrou uma espécie de espaço-tempo que é o modo normal do homem eletrônico. antes de einstein, carroll já havia penetrado o universo ultrassofisticado da relatividade. cada momento, para carroll, tinha o seu próprio espaço e o seu próprio tempo. Alice cria o seu próprio espaço e tempo."

Marshall Mcluhan  

Hajime Sawatari

"Tudo quanto possuímos de poético e também de absurdo se apresenta nos livros de Alice. Ao descer pela toca do coelho, Alice passa a habitar – como quando atravessa o espelho – um pais diferente do conhecido, como quando fechamos os olhos e nos percorremos. As surpresas despontam de todos os lados. Quem somos, afinal?"

Cecília Meirelles


Alice por enquanto é o mergulho e a travessia. 
Viajante da coleção de eus da especialice Adriana Peliano. 

Menina Sonho

Adriana Peliano é fundadora da Sociedade Lewis Carroll do Brasil, que não se cansa de alicinar  em suas buscas cosmicômicas. 

Salvador Dali

artigo publicado originalmente no site FORA DE MIM.

Consultas:
  
BURSTEIN, Mark. To Catch a Bandersnatch. 1970 / 2004. Não publicado.
 CAMPOS, Paulo Mendes. Para Maria da Graça. In: Para gostar de ler, crônicas. São Paulo: Ática, 1979, v.4, p.73-76.BURSTEIN, Mark. To Catch a Bandersnatch. 1970 / 2004. Disponível em: <http://www.lewiscarroll.org/wp-content/uploads/2010/03/ToCatchaBandersnatch.pdf>
CAMPOS, Augusto de. O anticrítico. São Paulo: Companhia das letras, 1986.
DALI, Salvador. Si: En Torno Al Metodo Paranoicocritico y Otros Textos. Barcelona: Ariel, 1977.
DELANGLADE, Frederic. ALYS: Divagation Onirique inspiree par Alice au pays des Merveilles de Lewis Carroll. Paris: Joseh Foret e Frederic Delanglade,1958.
DELEUZE, Gilles. Lógica do Sentido. São Paulo: Perspectiva, 1974.
HOPTMAN, Laura. Yayoi Kusama. Phaidon Press: 2000.
MABILLE, Pierre. Mirror of the marvellous. Inner Traditions Rochester, Vermont. 1998.
 MEIRELLES, Cecília. Problemas da literatura infantil. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
PRECIOSA, Rosane. Produção estética: notas sobre roupas, sujeitos e modos de vida. São Paulo: Anhembi Morumbi, 2005.
 
 
 

Caçando Alice em Sete Crises


Adriana Peliano


Colagem de Adriana Peliano sobre ilustração de John Tenniel

Elena Kalis

1

RIO


Alice foi criada na barca do sonho, num espelho líquido, seguindo o movimento do desejo, da imaginação e da curiosidade. Nasceu sobre o rio com seus duplos e reflexos, na correnteza e na contra corrente, na geometria de risos e estranhos paradoxos. Um livro agente não lê; a gente se precipita nele. Ele está, a todo instante, em torno de nós. Sentada nas margens, Alice iria se perguntar: e de que serve um livro sem figuras e nem diálogos? Faz de conta que Alice tenha sido mesmo o livro mais ilustrado de todos os tempos. Isso nos mostra que continuamos respondendo a pergunta que Alice não fez: E de que serve um livro com figuras e com diálogos?


Elena Kalis

The Hunting of Alice in Seven Fits


1

RIVER


Alice was raised on a ship of dreams, in a liquid looking-glass, following the currents of desire, imagination, and curiosity. She was born on a river, with its switchbacks and reflections, following and fighting the flow, in the geometry of laughter and strange paradoxes. We do not read a book; we dive into it. It surrounds us, constantly. Sitting on the bank, Alice would ask herself: and what is the use of a book without pictures and conversations? Alice has been perhaps the most illustrated book of all time. This shows that we continue to answer the question that Alice did not ask: and what is the use of a book with pictures and conversations?

continue...





Esse artigo foi publicado em:
This text appeared as an article in:

The Lewis Carroll Society of North America
Winter 2011 | Number 87 | Volume II Issue 17

"Publicação científica digital  do grupo de pesquisa
 Produção literária e cultural para crianças e jovens da USP".

Foi também apresentado no evento "Um dia, Alice 2012"
realizado na Casa das Rosas.

Conteúdo:
Alice viaja através das artes visuais, das ilustrações vitorianas à arte contemporânea, passando pelo surrealismo, os filmes da Disney e as Gothic Lolitas. Nesse percurso surgem novas articulações entre texto e imagem que enfatizam a multiplicidade de leituras que a obra de Lewis Carroll abre caminho. Alice ganha vida própria nas tessituras da cultura, menina caleidoscópico, monstro fabuloso no labirinto da linguagem e da imaginação. Ao invés da pergunta “Quem é Alice?”, hoje existem caminhos que desbravam novas possibilidades do que Alice pode vir a ser.... Esse artigo é uma caça por Alice em suas metamorfoses e devires.

9 de abr. de 2013

Go ask Fringe Alice...

Adriana Peliano

Para brincar com esse oráculo você precisa primeiro dar vida à sua própria Fringe Alice: pinte e borde, faça colagens, corte cabeças e pronuncie a palavra mágica. Você então terá uma Fringe Alice que transformará os seus sonhos.

Lance os dados mas  Fringe Alice não promete resultados!

1 .  flua no rio das metamorfoses
2 .  aceite perguntas sem respostas
3 .  faça tratos com monstros fabulosos
4 .  pare de girar ao redor da mesma mesa e se torne amigo do tempo
5 .  siga o seu próprio caminho para o jardim
6 .  mergulhe no desconhecido
7 .  acredite em coisas impossíveis

(todos os encantamentos foram encontrados nos livros de Alice)

8 de abr. de 2013

Metamorflores: Gaps where we can penetrate the marvelous


"Alice's adventures in the rabbit burrow or through the mantelpiece mirror encourage us to search for other gaps where we can penetrate the marvelous."

Pierre Mabille, 
Mirror of the marvelous

Adriana Peliano 
Adriana Peliano 
Adriana Peliano 
Adriana Peliano 
Adriana Peliano 

Colagens sobre ilustrações de John Tenniel para a obra
  Nursery Alice (1890) de Lewis Carroll

John Tenniel

John Tenniel

John Tenniel

John Tenniel


Adriana Peliano 



Psicodelícias e Estranhas Metamorfoses


"O artista terá, tal como Alice no país das maravilhas, que atravessar o espelho da retina para alcançar uma dimensão mais profunda." Marcel Duchamp

As aventuras de Alice dentro da toca do coelho ou através do espelho encoraja a procurarmos outras brechas para penetrarmos no maravilhoso.” Pierre Mabile


Assemblagens e montagens: Adriana Peliano
 
Fotos:  Elói Chiquetto

Adriana Peliano
Adriana Peliano
Adriana Peliano
Adriana Peliano
Adriana Peliano
Adriana Peliano



"Tudo quanto possuímos de poético e também de absurdo se apresenta nos livros de Alice. Ao descer pela toca do coelho, Alice passa a habitar – como quando atravessa o espelho – um pais diferente do conhecido, como quando fechamos os olhos e nos percorremos. As surpresas despontam de todos os lados. Quem somos, afinal?"

Cecília Meirelles


 A Sociedade Lewis Carroll do Brasil produziu uma caixa especial contendo cartões mágicos criados pelos artistas Adriana Peliano, Indio San e Anderson Resende. Na caixa moram 7 Alices de cada artista.

If you want to buy write to Alice por enquanto at the email:
alicemaravilha@gmail.com



7 de abr. de 2013

Elke no País das Maravilhas

Colagem de Adriana Peliano sobre foto de Elke Maravilha

6 de abr. de 2013

Illustrating Alice


What is the use of a book without pictures and conversations? 
thought Alice to herself.

Eu recentemente escrevi um capítulo para um lindo livro sobre o universo de Alices que transbordam em múltiplas possibilidades expressivas na ilustração. O livro inclui figuras maravilhosas de várias partes do mundo, em artigos escritos por acadêmicos, colecionadores, ilustradores e artistas alicinantes. Vale muito a pena conferir. Existe também uma edição limitada que vem com gravuras assinadas por artistas como Jan Svankmajer e Alain Gauthier, Joanna Concejo e De Loss McGraw, todos incríveis.

No capítulo que escrevi sobre Alice na ilustração brasileira, citei inúmeros ilustradores, todos os que conhecia e apresentei mais detidamente os artistas a seguir.

I recently wrote a chapter for one amazing book about Alice's universe of possibilities in illustration. There are many wonderful illustrations and authors, including scholars, collectors and artists. It was an honour to participate writing a chapter about Alice in Brazilian illustration, including some contemporary artists and beginning with our treasure which is the presence of Alice in the books of the writer Monteiro Lobato, the first to translate Alice in Brazil.

Artists included:

Claudia Scatamacchia
Salmo Dansa
Darcy Penteado 
Jô Oliveira
Helenbar
Adriana Peliano
Luiz Zerbini

know more about the presence of Alice in the work of Monteiro Lobato here e aqui