3 de jan de 2009

Magic toys

A CASA DA BRUXA [2000]



Quando etinha doze anos, eu dirigi, atuei e fiz o cenário para uma peça de João e Maria. Como uma criança gulosa, eu comecei produzindo uma linda casinha para a bruxa, coberta com muitos doces, balas e biscoitos, do tamanho de um bolo. Mas o cenário era o interior da casa e a casinha de doces foi parar em cima da mesa como uma armadilha para outras crianças gulosas como eu. Como diretora e roteirista da peça, eu tinha reescrito a estória tradicional, criando a explicação paradoxal de que “as chuvas fortes tinham feito a casa encolher tanto que ela tinha corrido para dentro de si mesma para que finalmente pudesse parar de encolher".



A CASA DE BONECAS

Doze anos depois, eu fui a Londres pela primeira vez para mostrar minhas ilustrações de Alice no centenário de Lewis Carroll em Oxford. Naquela época eu estava obcecada com a questão da mudança de tamanho, sempre procurando por garrafas e biscoitos que poderiam ser as chaves para essas transformações. O tesouro mais precioso que eu encontrei estava dentro de um museu de brinquedos. Para começar quando eu entrei no museu eu senti que estava entrando numa caixa de brinquedos gigantesca, quando uma súbita aparição provocou um sentido ao mesmo tempo de delicadeza e abismo que dissolveu minha antiga imagem da caixa de brinquedos. Eu tinha encontrado uma pequena casa de bonecas dentro de um quarto de criança de uma outra casa de boneca. Ela era tão pequena e perfeita mas ao mesmo tempo era a guardiã de um buraco negro secreto. Imediatamente a minha imaginação colocou dentro da casinha uma outra casa de bonecas e então outra e mais outra e assim sucessivamente. Então eu conclui que ao invés de uma caixa de brinquedos o próprio museu era uma enorme casa de bonecas. E assim num lapso de tempo a realidade desapareceu e ao invés de um programa turístico, eu tinha encontrado uma escada para o infinito.


MEU QUARTO

Meu quarto é meu lugar especial no mundo, um artifício da minha imaginação, parte uma caixa de brinquedos, parte uma casa de bonecas, um refúgio irresistível. Colecionando objetos eu construo um mundo em miniatura, onde as memórias da infância e as fantasias de uma caçadora de mistérios são constantemente renovadas através de um olhar melancólico. Objetos são guardados por muito tempo, objetos são encontrados em lugares inesperados, objetos são descobertos em dias especiais e em dias tão normais. Todos eles se transformam em tesouros na minha coleção de sonhos. Então na hora de dormir eu conto estórias para eles e imagino que eles irão acordar no meio da noite para viverem suas vidas secretas e quando eu acordar eles não terão conseguido voltar para seus lugares. Suas posições não são nunca fixadas, nem suas relações, nem suas articulações, sentidos ou amores. Mas eu tenho certeza de que todos eles sabem em seus corações que um dia podem ser convidados a abandonarem seus lugares no meu jogo das maravilhas e então participarem em uma construção enigmágica num filme de animação ou em um livro ilustrado.








A CASINHA ENCANTADA

Dentro desse quarto você pode encontrar o exterior de meu mundo imaginário. Então, em meu pesadelo, é impossível escapar do meu mundo dos sonhos porque se eu tentar sair do quarto, volto para dentro dele no meu mundo em miniatura. A casinha encantada é uma chave do tamanho e também uma armadilha terrível. A casinha encantada não tem janelas. Ela é uma caixa preta, contendo um segredo, como um anel de Moebius. Eu tive então que tirar fotos do quarto e coloquei os slides dentro da casa, criando assim possíveis janelas e talvez possíveis saídas. Mas quando eu coloquei dentro da casinha uma imagem da própria casinha, eu comecei imediatamente a imaginar que dentro da outra casa tinha uma outra casinha, e mais outra, e assim sucessivamente até o infinito. Dessa forma, como meu quarto estava dentro da casinha, eu estava correndo o sério risco de ser sugada na espiral de imagens e me perder nesse labirinto de janelas até o infinito e ser então decisivamente capturada. Como eu poderia sair do meu quarto através da casinha e me livrar de suas armadilhas irresistíveis?






O FABULOSO DESTINO DE AMELIE POULAIN

Depois de encontar o tesouro de uma criança numa caixinha secreta, a vida de Amelie Poulain teve uma mudança repentina. Ela decidiu que se ela pudesse achar o dono daquele tesouro precioso, ela começaria a ajudar as pessoas a mudarem suas vidas e ela começou a criar várias estratégias para isso. Um conto de fadas contemporâneo, essa é uma fábula sobre a necessidade das pessoas de saírem de suas conchas e se abrirem para o outro. Amelie me ajudou também. Para superar minhas próprias armadilhas e acordar do meu país das Maravilhas particular, quando me mudei para a Inglaterra decidi trazer comigo meu quarto em miniatura, como colecionadora nômade. Então eu segui a estratégia do anão de Amelie, fazendo fotos da minha casinha em nosso destino fabuloso. E então partimos juntas deixando o resto para trás.












THE WITCH HOUSE

When I was twelve years old, I acted, directed and designed the set for a “Hansel and Gretel” play. As a greedy child I was, I began producing a beautiful and sweet house for the witch, assorted with many candies and cookies with the size of a cake. But the set was the interior of the house and the cake house went direct to the top of the table as a trap for other greedy children like me. As the director and the scriptwriter of the play, I had rewritten the traditional story, creating the nonsensical and paradoxical explanation that: “the heavy rains had made the house shrink so much that its exterior had gone to its interior to run away from the bad weather, when finally and fortunately the shrinking process had stopped.


THE DOLL’S HOUSE

Twelve years later, I went to England to show my Alice illustrations at the Lewis Carroll Centenary in Oxford. At that time I was completely obsessed with the matter of size changing, always looking for bottles and cakes that could be the keys for these transformations. The most precious treasure I found was inside a beautiful toy museum. First of all when I entered the building I felt that I was emerging into a huge toy box, when a sudden appearance provoked both a sense of delicacy and abysm that totally dissolved my old image of the toy box. I had found a small doll’s house inside the child’s room of another doll’s house. It was so small and capriciously done but at the same time it was a guardian of a secret dark hole.  Immediately my fantasy put inside of that doll’s house another doll’s house, and inside might exist another and then another and another and so on  in a mise en abyme. Then I concluded that instead of a toy box the museum itself was a huge doll‘s house. So in a lapse of time reality had disappeared and instead of a tourist program I had found one staircase to the infinite.


MY ROOM

My room is my special place in the world, an artifice of my imagination, part a toy box, part a doll’s house, an irresistible refuge. By collecting objects I construct a world in miniature, where the memories of a childhood and the fancies of a hunter are constantly renewed through a melancholic eyeglass, through a magic looking glass. Objects are kept for a long time, objects are found in unsuspected places, objects are earned in special or common days. All of them become treasures in my collection of dreams. There in the bedtime I tell them stories and imagine that they will wake up at night, live their secret life and when I wake up again they won’t be able to return to the same place again. Their position are never fixed, nor their relation, nor their meaning, nor their articulation. But I’m sure that each one of them know by heart that one day can be asked to abandon their places in my wonderland’s game and will integrate an possibly allegorical and literary construction in a stop motion animation or in a book illustration.


THE LITTLE HOUSE

Inside my room you can find the exterior of my imaginary house. So, in my nightmare, is impossible to escape from my own imaginary world, because if I try to go out of my room I will get inside it again in my miniaturised world. The little house is a key of sizes, and in consequence it is also a trap. The little house has no windows. It is a black box, containing a dark secret, like a Moebius’ ring. Taking pictures of the room and putting the slides on it, I have created my possible windows, maybe possible exits. But when I put inside the house one picture of the house itself, I begin at the same time to imagine that inside of the house in the picture, might exist another window with the image of another house even smaller and inside this image another, and then another, and another up to infinite. In this way, if my room was inside that little house, I was taking the serious risk to be sucked in the spiral of images and be lost in this labyrinth of windows to the infinite. How could I go out of my room though my little house and be free of its irresistible traps?


LE FABULEUX DESTIN D’AMELIE POULAIN

After finding a children’s treasure in a little secret box, the life if Amelie Pulain have suddenly changed. She decided that if she could find the owner of that precious treasure she would begin to help people to change their lives. And she began to create many strategies for doing so. One contemporary fairy tale, it’s a fable about people’s necessity to break their eggshells to meet the others. Amelie Poulain also helped me. To come out of my own traps and be able to leave behind my private wonderland, I first decided to bring with me my miniaturised room as a nomad collector. Then I sought the Amelie’s strategy of the dwarf, making pictures of my little house in our fabuleux destin. Then we came together and left everything else behind.



Um comentário:

miki w. disse...

casa-sonho de adrianalice
coelhos que correm desenfreados
meninas que encolhesticam
chaves-casa e casa-chaves
passeio delicioso para se fazer depois do chá das 5!

bj, m.